HUMBERTO ESPÍNDOLA
ENTREMEIOS
Curadoria:
VICTOR GORGULHO
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O BOI, A ESTRADA E A BANDEIRA
VICTOR GORGULHO

Há artistas que, desde o início de sua trajetória, elegem certo universo, um imaginário, uma figura ou um signo qualquer que virá a tornar-se símbolo maior de sua pesquisa, linguagem e poética artísticas. No caso de Humberto Espíndola (Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 1943), a figura do boi – em suas mais distintas camadas semânticas, visuais e para além delas – constitui a insígnia maior de uma trajetória artística que, iniciada na década de 1960, permanece em plena atividade.
“Entremeios”, sua exposição individual no MT – Projetos de Arte, no Rio de Janeiro, apresenta duas dezenas dos trabalhos recentes realizados por Espíndola. Separam-se, assim, as obras atuais, no primeiro piso expositivo e, no segundo pavimento, uma apresentação (representação?) de momentos históricos da relação entre Espíndola e a figura do boi.
De saída, é preciso esmiuçar a complexidade da presença do boi na produção artística de Humberto. Dos anos 1960 aos dias de hoje, o boi de Espíndola já ganhou conotações distintas e amplamente diversas: signo de afirmação regional/ territorial (fixando o Centro-Oeste em um mapa das artes desde sempre concretado em um Sudeste tão distante do Cerrado); bicho-místico prenhe de poesia e afeto, transformado em matéria poética pelo próprio artista; signo político que nos relembra, inequivocamente, as controversas posições que o agronegócio pode vir a tomar, terreno nebuloso de se assentar na terra vermelha do Cerrado.
Todos esses bois – e tantos outros ainda mais – coexistem no imaginário de Humberto, que com eles cria um ambiente que transita com exímia destreza entre a modernidade e a contemporaneidade, entre o campo e a urbe, entre o plano terreno e as dimensões espirituais. Nesta exposição, o artista campo-grandense apresenta uma série de trabalhos recentes, mostrados pontualmente em conjunto com obras emblemáticas de sua trajetória, como o totem de chifres de boi, anteriormente exibido em sua participação na Bienal de Veneza, no ano de 1972.
A série “Entremeios” consiste em pinturas sobre caixas de madeira, onde o gesto pictórico convive com a presença sinuosa, quase geométrica, dos excertos da pele de bois, empregados pelo artista após todo o processo que se dá no tratamento e separação das distintas partes do animal.
É assim que, aqui, essas obras ganham contornos únicos, em que a pele do animal pode evocar tanto um relevo, uma criatura por nós inominável, um recorte abstrato, uma referência a um outro ente da pintura e, ainda além, vai…
Os bois de Espíndola em nada nos conduzem à ideia brutal da morte que, inexoravelmente, os atravessou antes de aqui estarem, exibidos. O artista transfigura os vestígios naturais desses animais ao mesmo tempo que os toma não apenas como matéria-prima, mas também como parceiros cósmicos, míticos, criaturas que ultrapassam a dimensão terrena em que antes se encontravam.
Vemos, então, a construção figurativa de estrelas, cores que lembram a bandeira brasileira, a sensualidade da topografia carioca, as muitas marcas indeléveis que o fogo exerce sobre a pele do animal – chegando ao ponto, até, de torná-las abstração por si só. Linguagem infinita, casamento cósmico, criador e criaturas em fusão orgástica e explícita.
No segundo andar do espaço expositivo, evidencia-se essa espécie de casamento e devoção que o artista e suas criaturas engendram, ao passo que é reproduzida a sequência fotográfica da histórica performance “Ritual do Sacrifício” (Fazenda Conceição, Pantanal, 1971). As imagens dão conta de acompanhar, com certa aura ritualística, a relação entre o artista e um boi já abatido, cujo próprio sangue é nele inscrito – em forma de mãos, riscos, rasuras, realizados pelo artista.
Conforme o animal é conduzido à abertura de seu corpo, Espíndola é quem reconhece e ergue, em seguida, o diminuto filhote que, também morto, repousava em certo berço e conforto dentro do ventre da mãe. Pelo artista ele é levantado, devolvido à natureza, banhado em sol, som e fúria que ressoa e comove nas fazendas profundas de um Brasil ainda mais profundo.
Ao fim e ao cabo, restam o boi e o homem, a pele marcada de ambos, o sangue na mão, feito tinta borrada; relação encharcada, intrincada, fruto da vivência, da dor e da poesia, de um e de outro, sem fronteira a separar. Devir-boi, homem e criatura, carne da mesma espessura.
Imagens, ao tocar da boiada: é o som da madeira, o sangue na estrada, o nó em fileira. É o boi e é o homem, é a terra e o grão, é aquilo que nasce, no fim de cada manhã. É a lenha, é o dia, é o pedaço da estrada, é pele marcada, boi na lama, boi na cama, é o enlace de nada. É o sangue jorrando, a promessa ribeira, é o boi contrariado, o animal e a bandeira.
Rio de Janeiro, Junho de 2026

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