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Colecionismo ativista: a experiência da MT Projetos de arte
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Margareth Telles entre as obras de Heitor dos Prazeres, CCBB-RJ – junho/outubro 2023
Fundada em 2020, a MT Projetos de Arte é uma anomalia no tecido artístico contemporâneo brasileiro (e não só): não é, na verdade, nem uma galeria, nem um espaço independente, nem mesmo uma organização sem fins lucrativos. Mesmo assim, o projeto produz, vende e amplia seu sucesso: conversamos sobre isso com a fundadora, Margareth Telles, e com Lêo Pedrosa.
A sede da MT Projetos de Arte, hoje no coração do centro histórico do Rio de Janeiro, ao lado do Paço Imperial - no ambiente que durante vários anos sediou a galeria Progetti de Paola Colacurcio e Niccolò Sprovieri, que trouxe Kounellis para a primeira vez no Brasil, em 2008 – é uma vitrine para conhecer o intenso trabalho de divulgação, produção e apoio de alguns artistas. “Alguns”, provavelmente, já é uma palavra que define uma multidão muito grande, visto que Margareth e Léo – junto com um grupo de colecionadores, nos últimos três anos lidaram principalmente com três personalidades: Heitor dos Prazeres, Gervane de Paula e JOTA , a que se juntam a exposição “Podre de Chique” de Adir Sodré (1962-2020) e a colaboração com a jovem Rafael Mateus Moreira (1996), seguindo a vontade de promover artistas negros de diferentes gerações.

Adir Sodré, Podre de Chique, vista da exposição, ph. Fabio Souza, courtesy MT Projetos de Arte, RJ

Vista da exposição Heitor dos Prazeres, Centro Cultural do Banco do Brasil – CCBB-RJ – junho/setembro de 2023. Photo: Fabio Souza
Heitor dos Prazeres (1898 – 1966), compositor, cantor e pintor durante muito tempo escondido sob o rótulo de naïf, não só teve uma retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil, que terminou em setembro passado, como também está entre os protagonistas de “Dos Brasis” e da exposição dedicada ao nascimento do Samba, no Instituto Moreira Salles em São Paulo; Gervane de Paula (1961) é matogrossense e, apesar de ter trabalhado há mais de trinta anos com uma pintura angular e poética, ironicamente trágica, que investiga a relação negro-branco no universo social brasileiro, nunca teve qualquer representação no sistema; por fim, JOTA (2000), estrela que floresceu nos últimos dois anos e que - acabando de completar 23 anos - foi noticiada pelo New York Times como líder, "artista revelação", daquele grupo – hoje muito numeroso -– de jovens pintores brasileiros que retratam suas vidas nas comunidades. O “Candido Portinari do Chapadão” como JOTA foi definido por O Globo, é o artista destaque da MT Projetos e, no Rio, também está em cartaz no “FUNK”, no MAR, e por sua vez no “Dos Brasis” em Sampa.

JOTA, Outras Obras, detalhe da exposição – Courtesy MT Projetos de Arte, Rio de Janeiro

Rafael Mateus Moreira, O Nascimentos das tupiniquins – Amapô
Mas o que significa ter um espaço de arte que não é uma galeria e que optou por investir na promoção de alguns artistas, dedicando o espaço da Travessa do Comércio integralmente, e por tempo indeterminado, a Gervane e ao JOTA? «A MT Projetos nasceu de uma necessidade real de ajudar artistas que muitas vezes vinham pedir uma ajudinha para publicar um livro, fazer uma exposição ou simplesmente continuar sendo artistas. Também venho de uma região completamente deserta em termos de museus, a Baixada Fluminense, mas tive a sorte de trabalhar anos e anos ao lado de um colecionador que mudou minha forma de entender a arte. Assim, depois de vagar pela Europa e pelos Estados Unidos, em busca de inspiração, em 2020 voltei ao Rio e abri a primeira filial do MT em frente ao MAM, e organizei uma exposição dedicada aos colegas históricos de Hélio Oiticica: conseguimos vender obras, apesar da pandemia, e pensei que esse modelo poderia funcionar", responde Margareth, que insiste no fato de que - por enquanto - o elenco deve ser reduzido ao mínimo para dar a máxima atenção aos artistas escolhidos: "Meu objetivo é colocar os três em outro nível, um nível alto. Quando eu atingir esse objetivo, poderemos ampliar o círculo. "O objetivo de Margareth, em diversas ocasiões, nesses três anos de atividade acertou em cheio: Heitor dos Prazeres teve sua retrospectiva no CCBB, e em abril de 2024, Gervane terá sua exposição individual na Pinacoteca de São Paulo, enquanto JOTA é o mais procurado do mercado, requisitado por pop stars e colecionadores dispostos a tudo para ter um de seus quadros.

Gervane de Paula, cortesia MT Projetos de Arte, Rio de Janeiro
Face a uma definição oficial da MT Projetos, dada a confusão que poderia ser gerada com a aparência do espaço ser idêntico a uma galeria, Léo vem em nosso auxílio, declarando: «Eu diria que é uma plataforma de colecionismo ativista», lembrando que a “equipe” de apoio da MT Projetos é formada por cerca de 40 colecionadores, enquanto Margareth insiste: «Gosto de me definir como uma ativadora, uma provocadora, que trabalha nas bases do sistema».
A questão que se coloca espontaneamente, obviamente, é como iniciar um investimento deste tipo, sobretudo em relação ao apoio aos artistas, e a resposta dos fundadores do MT é, de certa forma, inesperada: «Vendemos 4 ou 5 obras para iniciar o projeto. Metade da receita vai para o artista e a outra metade vai para as despesas de subsistência de seu “treinamento” e produção, desde viagens até materiais para produzir obras.” Resumindo, você entendeu bem, todo o dinheiro obtido com as vendas é doado ao artista como um “fundo anual”, que permite criar um trabalho descontraído e uma estrutura mental.

Gervane de Paula, cortesia MT Projetos de Arte, Rio de Janeiro
E se muitos ficam perplexos, até porque o projeto explodiu em muito pouco tempo e houve uma atenção completamente inesperada da imprensa em relação ao JOTA, Margareth afirma: «O que vou ganhar, com a MT Projetos de Arte, provavelmente será no muito longo prazo. No entanto, sabemos que estamos a seguir um caminho que aproveita uma falha do sistema, entrando no circuito por outra porta, porque ao contrário daqueles colecionadores que compram obras de jovens artistas a granel, abrindo o seu espaço e mostrando a sua coleção, nós queremos realmente fazer crescer os artistas em que acreditamos hoje e aqueles nos quais nos concentraremos amanhã."
Mas há outro aspecto fundamental neste apoio: é o que a MT Projetos chama de “mecenato de inclusão”; para entender o conceito precisamos refazer um pouco a trajetória de JOTA, “formado” como pedreiro que queria ser tatuador, descoberto através do Instagram por um antigo colecionador que comprou seu primeiro quadro por alguns centavos. É nesse ponto que Margareth entra em cena, colocando-se como pigmalião do jovem pintora que, após se apresentar na ArtRio em 2021, fez exposição individual no Ateliê de MT, no bairro da Lapa (hoje fechado), com curadoria de Pablo Léon de la Barra, curador geral da América Latina no Guggenheim de Nova York, alçando voo.

JOTA com Thais Iroko, Guilherme Sofé e Caio Luz, Muro da Paz, mural realizado no Complexo do Chapadão, RJ, 2023, cortesia MT Projetos de Arte, Rio de Janeiro
«Investimos no JOTA ajudando-o a crescer na sua obra, divulgando a sua pintura realista que tem a ver com a sua vida no Complexo do Chapadão, comunidade onde ainda vive, dando-lhe a oportunidade de superar o racismo estrutural que inibe as comunidades afrodescendentes das favelas, especialmente na cidade do Rio de Janeiro", explicam Margareth e Léo.
E para colocar a identidade do JOTA no papel também no Chapadão, onde a arte visual e ainda mais contemporânea nunca havia chegado, nasceu também o 'Muro da Paz', um verdadeiro mural para contar a vida da comunidade, criado por Johny Alexandre Gomes (nome verdadeiro do JOTA) com outros jovens artistas oriundos de favelas, mais uma responsabilidade para o artista que agora também passou a oferecer aulas de pintura aos menores da comunidade.
Um sonho de redenção que não quer seguir as leis do mercado escritas por outros: «Quero usar as minhas forças para dar visibilidade a figuras que o mundo da arte oficial continuaria a ignorar ou a deixar à margem, mas que todos devem saber», finaliza Margareth.
Porque a arte, além de representar uma economia, é também uma questão de orientação e de cultura. E mesmo que o dinheiro compre tudo, ou quase tudo, também é verdade que nem tudo pode ser vendido
